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Filarmónica Recreativa Cortense

Filarmónica Recreativa Cortense

Cortes do Meio, Concelho da Covilhã, Distrito de Castelo Branco

BANDAS - Sociedade Filarmónica Silvarense

 
 
 

Existe a História e a Memória: a primeira é uma ciência mil vezes estabelecida. A segunda é um conjunto instável de representações colectivas das suas recordações fragmentadas, de sentimentos repartidos que forjam a identidade de um povo ou nação .

Neste povo - memória que é Silvares a primeira iniciativa deste tipo , ou seja a edição do Historial da Banda , constitui um campo de exploração privilegiada da memória colectiva , já que mais não fosse em razão da sua ancestralidade , da sua influência e do lugar particular que tiveram todos os Silvarenses das quatro últimas gerações.

A memória fornece em resumo, o cimento do querer viver em conjunto, das suas angústias e das suas esperanças, das suas feridas e das suas resistências. Se a esperança não permitia alcançar mais longe que os píncaros das serras e montes, a dor e a resistência à miséri , às minas e à silicose, que impediu muitos homens de participar ou continuar na Banda , foi o pão nosso de cada dia .

Para alguns, grande maioria, para além do prazer da participação e sem excluir o estatuto social que tal situação lhes dava, era também a oportunidade na altura das festas de tirar a barriga de misérias. E estas situações queiramos ou não, fazem parte integrante da memória colectiva de Silvares.

Mais tarde, a emigração (outro flagelo) modificou sensivelmente em certa medida algumas situações e comportamentos a nível da Banda e no resto da população.

A difusão desta edição constitui um grande progresso e riqueza cultural e sociológica que muito significa para Silvares, porque nela traçam a história da Sociedade Filarmónica Silvarense através de quatro gerações.
Foi uma aposta que os actuais dirigentes ganharam e que deve servir de exemplo para o resto das forças vivas de Silvares.

Quero pois saudar em nome da excepção cultural o que tal documento constitui, documento que dá corpo à iniciativa e é um pretexto para Silvares se reencontrar com o seu passado , reconciliar-se com a sua identidade mais profunda , pois estamos certos que há um universo de estórias para contar , um mundo de detalhes a aprofundar e cuja divulgação ajudará os actuais e os futuros Silvarenses a conhecer mais profundamente e melhor, o itinerário dos nossos antepassados , do que fomos e somos , Hoje.

Abílio Laceiras.

Numa das aldeias mais antigas do concelho do Fundão, agora Vila de Silvares, que já se encontra documentada desde os primórdios da fundação da Nação (o primeiro registo conhecido data de 1226, aquando da doação da Lardosa aos Templários). Em 1921 nasceu em Silvares a segunda associação. A primeira foi a Irmandade das Almas, fundada há já alguns séculos, não se sabe ao certo a data da sua fundação, porque com o passar dos tempos, os documentos foram desaparecendo quer pelas revoluções, nomeadamente aquando da Implantação da Republica, quer pela incúria dos homens que não souberam atribuir o devido valor ao legado dos nossos antepassados e destruíram pura e simplesmente os registos. A Filarmónica Silvarense – Associação 8 de Dezembro que pela vontade do povo silvarense, vontade congregada pelo então Pároco de Silvares, Padre José Lopes de Assunção, natural de São Vicente da Beira, o qual juntou alguns notáveis da freguesia. Surge então a primeira direcção da Banda, em data exacta que se desconhece, mas que terá sido por volta de 1919-1920.

Os homens que integravam essa direcção eram:

• Padre José Lopes de Assunção
• Joaquim Nunes
• José Valentim
• Joaquim Ferrão
• António Rodrigues Fabião

Essa Banda foi criada, segundo uma versão da época, devido à precariedade das condições de acolhimento às bandas de outras terras que vinham a Silvares abrilhantar as festas populares, tendo de pernoitar em palheiros e sem um mínimo de condições de comodidade. Segundo outra versão, (testemunho do Sr. Casimiro Brasinha a uns alunos da Escola EB2ºe3º Ciclos de Silvares), a Banda teria sido criada para ocupar os tempos livres dos jovens da aldeia, vagueavam até altas horas da madrugada pelas ruas, cantando. A ideia partiu do Pároco da freguesia, embora não acreditasse que os rapazes conseguissem aprender solfejo. As primeiras aulas foram ministradas pelo próprio Padre José Lopes de Assunção durante algum tempo numa divisão da casa que é hoje pertença dos herdeiros do falecido Abílio Ladeira.

Sendo o entusiasmo e empenho dos “aprendizes” muito superior ao esperado, o Padre José Lopes de Assunção já não tinha capacidade e conhecimentos musicais suficientes para poder continuar com o projecto, tendo convidado um colega, o Padre José Maria de Bogas de Baixo, para se encarregar da formação dos músicos. O Padre José Maria trouxe para ali alguns instrumentos já velhos que pertenciam à Banda de Bogas de Baixo, para os músicos da Banda de Silvares poderem começar a tirar escalas. Mas, nesses tempos, não havia a facilidade de transportes que há hoje em dia, e então o Padre José Maria teve de abandonar o projecto.

A então “comissão instaladora” chamou um maestro, Ernesto Hipólito de Jesus, sapateiro de profissão, para poder continuar a ensaiar os músicos.

O maestro instalou-se numa divisão de um palheiro que também servia de local de ensaio, e onde ele podia continuar a exercer a sua profissão.

Os instrumentos eram poucos e muito velhos, e como nessa altura tinha cessado a actividade uma das duas bandas que existiam no Castelejo, aproveitou-se para comprar o instrumental que ficara parado. Depois de muitos ensaios e muitas horas de sacrifícios, já que a maioria dos elementos eram agricultores que trabalhavam de sol a sol, e, só podiam ensaiar à noite à luz da vela, e aos domingos de tarde, as ruas da povoação encheram-se de notas musicais saídas dos instrumentos tocados por silvarenses, pela primeira vez nas “endoenças”, em 1921. Nesse ano além das festas em Silvares ainda se abrilhantaram as festas do Ourondo e da Barroca do Zêzere.

Foi então que surgiu o primeiro fardamento, como conta o Ti Casimiro muito emocionado, “era lindo, todo azulinho, e os barretes tinham uma bola na frente …” Como também não podia deixar de ser, e como era hábito nessa época, a instituição tinha de ter padrinhos, foi então escolhida a Lucília Fabião filha de António Rodrigues Fabião um dos fundadores e o Dr. Jaime Crespo Pignatelli

A Banda era formada por 29 elementos, mas os instrumentos não chegavam para todos, pois só havia 21. Foi com esses que funcionou durante quase um ano, mas, entretanto, com a ajuda da população, que organizou um cortejo, e encenou umas peças de teatro para angariação de dinheiro, como já o tinha feito para o fardamento no ano anterior. Porque o dinheiro das festas não chegara para as despesas, foi possível adquirir mais alguns instrumentos.

Foi no ano de 1924 que surgiu o primeiro desentendimento. A Banda do Castelejo a quem se tinha comprado o instrumental, voltara a iniciar a sua actividade. Tinha uma actuação e não tinha fardamento, pedindo o de Silvares emprestado. A direcção logo concordou, ao invés dos músicos, que se opuseram, levando mesmo ao abandono de alguns elementos. A farda foi cedida e a Banda parou.

Muito pouco tempo depois os músicos voltaram a juntar-se e elegeram nova direcção, presidida pelo António Morgadinho.

Algum tempo depois a banda é corrida do palheiro e vai para uma casa na pedreira.

É eleita nova direcção devido ao abandono da anterior. Mais uma vez a Banda tem de andar com a casa as costas e vai para uma casa (actual casa da família Barroca Gil) pertença do então presidente, Adelino Gil. Fazem-se novas fardas, desta vez em tons mais claros.

Com o decorrer dos anos, os candidatos a músicos iam aparecendo cada vez em maior número, alguns ficavam relativamente pouco tempos, mas outros ficariam na Banda toda a sua vida e assim foi garantida a continuidade da Sociedade Filarmónica Silvarense.

Depois de alguns anos, bastante conturbados, com altos e baixos, mas os altos sempre a sobreporem-se aos baixos, a Banda foi evoluindo e formando não só bons músicos como também grandes Homens.

Era necessário oficializar a Banda porque as actuações eram cada vez mais numerosas, as deslocações eram cada vez para mais longe, e a Banda tinha de ser reconhecida oficialmente. Como não havia estatutos que pudessem reger a Sociedade Filarmónica, foram então elaborados os primeiros estatutos, em 1927, os quais foram apresentados a todos os membros da Sociedade Filarmónica Silvarense – Associação 8 de Dezembro e aprovados por unanimidade.

Esses estatutos foram apresentados, aprovados e registados no Governo Civil de Castelo Branco, a 21 de Junho de 1927. Era então Governador Civil Júlio Rodrigues da Silva, Capitão de Caçadores Atª 6 e pelo secretário-geral Dr. Jaime dos Santos Lopes Dias.

A comissão organizadora da Sociedade Filarmónica foi a seguinte:

• Ernesto Hipólito de Jesus (Maestro e sapateiro)
• Casimiro Pereira Brasinha (proprietário)
• José Ramos Paulos (agricultor)

Sendo os primeiros sócios, e oficialmente sócios fundadores os seguintes:

• José Eduardo Gonçalves
• António Paschoa Ferreira
• José Faia
• Abílio Gomes
• António Pires
• Joaquim São Martinho
• José Roda
• João António de Almeida
• Cipriano Gil da Silva Guerra

Com o grande desenvolvimento das Minas da Panasqueira e Cabeço do Pião, nas décadas de 1930 e 1940, e devido à grande necessidade de volfrâmio na 2ª Guerra Mundial, foram muitos os elementos que passaram de agricultores a mineiros, trocando a luz do dia pelas trevas das profundezas, deixando de caminhar pelos caminhos cheios de sol para passarem a caminhar na escuridão das galerias que a tanto custo abriam nas entranhas da terra, deixaram de ter uma vida sem pressas para, do dia para a noite, terem de cumprir horários e trabalho por turnos.

Nessa época, Joaquim Duarte Pissarra, secretário do director das Minas da Panasqueira, não só dispensava os elementos da Banda para as actuações, como também para os ensaios, fornecendo ainda o transporte para os mesmos, tendo sido um verdadeiro benemérito da Banda, que também muito ficou a dever os auxílios do Dr. Jaime Crespo Pignatelli, e do Eng. Pompilio, também este das Minas. Nessa época o nome de Silvares era muito conhecido no meio musical da região, a nossa Banda ia a muitos festivais de bandas onde obtinha sempre um lugar de destaque, nomeadamente no Festival de Bandas da Pampilhosa da Serra, que era um dos mais conceituados festivais da região. Enaltecida pelo “Jornal do Fundão” na sua edição nº 74 de 22 de Junho de 1947 aquando das festas do 1º Ciclo na então Vila do Fundão “ Silvares marcou um lugar de destaque nas festas do 1º Ciclo…uma filarmónica que é indiscutivelmente uma das melhores do distrito…”

Mas a qualidade da “nossa musca” não espelhava as dificuldades enfrentadas pelos seus elementos e pelo povo em geral, foi uma época muito difícil, onde a preocupação diária era a de arranjar comida para o dia seguinte matar a fome aos filhos.

Tendo sido os anos do pós-guerra dos mais difíceis, devido à sobre produção das minas estas tiveram de ser encerradas. No ano de 1942 foram extraídas 2.083 toneladas de volframite e 44.318 quilogramas de cassiterite, no ano de 1943 trabalhavam nas minas cerca de 3000 mineiros. Foi uma paralisação que obrigou a que muitos dos mineiros tivessem de se deslocar para as minas da Urgeira (Canas de Senhorim), para conseguir trabalho, ficando muitos outros à espera que as obras das estradas Barroca – Orvalho e Paul – Cebola fossem iniciadas (in “JF” nº 11 de 7-IV-1946). Essas obras começaram em Novembro de 1946 (in “JF” 11-XI-1946). Foi nessa época que um filho de Silvares, Aurélio Nunes de Figueiredo, criou a sopa dos pobres, com a ajuda do Governo Civil de Castelo Branco, que comparticipou com 1000$00 mensais. Eram distribuídos, diariamente, 46 litros de sopa pelos pobres da freguesia. (in “JF” de 22-VI-46).
No ano seguinte, para ajudar a superar a crise foi aprovado o calcetamento da E.N. 238 em Silvares pelo Ministro das Obras Públicas (in “JF” nº 87 de 14-IX-47), foram também inauguradas as “…modernas e belas escolas na capital do rio…”(in “JF” nº 90 de 12-X-47) sendo professores do ensino masculino Alfredo Gil e Vaz de Carvalho, e do ensino feminino a Professora Belmira Figueiredo. Essa inauguração foi feita pelo Presidente da Junta, Dr. Jaime Crespo Pignatelli, e onde se realizou a 4ª Sessão do Congresso Municipal. A energia eléctrica era fornecida todos os dias das 18 ás 23 horas.
Em 1947, Silvares viu nascer o Rancho Folclórico de Silvares. Convidado a criar um grupo de danças populares, para representação de Silvares nas comemorações do 2º Centenário do Concelho do Fundão, José Valentim, reuniu um grupo de pessoas, pediu ao Joaquim Duarte para os ensaiar, e assim formou o Rancho de Silvares que nunca mais pararia desde então. José Valentim, único fundador do Rancho Folclórico de Silvares, estava directamente ligado à Sociedade Filarmónica Silvarense, tendo sido um dos seus fundadores.

No ano de 1948, mais precisamente a 24 de Fevereiro, foi criado o primeiro clube de futebol em Silvares. Foi-lhe dado o nome de Sport Lisboa e Silvares. “O jogo inaugural foi em Casegas contra o Casa Pia local, no qual se registou um empate a 3 tentos…” (in “JF” nº110 de 7-III-48). Nesses anos dos finais da década de 40, início de 50, os tempos eram muito duros, mas no entanto muito rico do ponto de vista associativo. Além do clube de futebol já citado, surgiram também, em Novembro de 1949, o Sporting Clube de Silvares, e a Confraria de S.Vicente de Paulo, presidida pela Belmira Nunes de Figueiredo conforme noticiado no Jornal do Fundão nº 195 de 2 de Abril de 1950. Relata ainda o primeiro derby entre o Sport Lisboa e Silvares e o Sporting Clube de Silvares realizado em Silvares,”… tendo o Capelo marcado os dois golos da vitória do Sporting Clube de Silvares no dia de Natal do ano passado.”

Devido à necessária divisão dos Silvarenses pelas várias associações a banda ressentiu-se seriamente tendo mesmo sido anunciado o seu fim, o que foi prontamente desmentido no JF 176 de 6/11/49”… a filarmónica, longe de acabar, continua em plena vida e a trabalhar pelo seu desenvolvimento e valorização… sob a regência activa e competente do seu mestre, Sr. Aires Júlio de Oliveira.” Mas, na realidade, a Banda andava com grandes dificuldades, não só por falta de elementos, como acima referimos, mas principalmente devido ao falecimento de António Rodrigues Fabião no dia 27 de Dezembro de 1948, com 80 anos. Desde esse dia que a direcção não se entendia com os músicos, porque não deixou que estes tocassem uma marcha fúnebre no funeral desse “… homem a quem a banda muito lhe fica dever…” (in JF 201). O problema foi esquecido, pelo menos por um tempo. Só em 1951 mais precisamente em Maio, é que o JF volta a referir problemas existentes na Banda. Falava-se em Silvares, que a Banda iria findar, devido ao abandono do maestro, e a problemas internos entre os músicos e a direcção. O que foi prontamente desmentido pela direcção, na edição 252 de 6 de Maio. “São absolutamente destituídos de fundamento os boatos que o regente da Banda desta freguesia, Sr. Aires Júlio de Oliveira ia deixar de prestar assistência ao nosso agrupamento musical. Sob a sua competente direcção a nossa Banda exibir-se-à dentro em breve estreando nesse dia o seu novo fardamento.

Também a harmonia entre os seus 30 executantes continua a ser a melhor, a todos animando a vontade de aprender para melhor honrar a sua e nossa terra nas festas para que for solicitada a colaboração da Banda…os componentes da nossa Banda têm já fardamento novo. Este será estreado no próximo dia 17 na festa de Nossa Senhora do Miradouro no Fundão…necessário se torna porém, para que a Banda possa viver com relativo desafogo que todos os habitantes desta terra, na medida das suas posses, para ela contribuam com uma cota em dinheiro…” Não era só a Banda de Silvares que tinha dificuldades. Na região, muitas bandas tinham parado definitivamente, algumas nunca mais voltaram a ressurgir, e outras muito mais tarde e esporadicamente. Como é hábito a população aderiu e os problemas foram ultrapassados.

Um bom exemplo da força de entreajuda entre Silvarenses e sua união, foi a primeira festa em honra de Santa Luzia em Setembro de 51, como anuncia o “JF” nº 270 “…como o povo de Silvares tem grande devoção a Santa Luzia, vão realizar-se nesta povoação, nos dias 14, 15 e 16 festas em louvor de Santa Luzia que se irão repetir nos próximos anos…”. A população de Silvares uniu-se, devido a divergências com a população do Castelejo no ano anterior, e resolveu festejar a Santa Luzia em Silvares, construindo aqui um belíssimo santuário em sua honra. O grande impulsionador foi o José Garcia e o seguinte diálogo ficou célebre na povoação:

- O que quereis povo de Silvares?
- Santa luzia Sr. Garcia!

Estávamos a meio do século XX e a tecnologia começava a chegar a Silvares, já havia 10 telefones em Silvares, incluindo os postos públicos de Silvares e do Ourondo e os correios “CTF”. Os automóveis começavam a cruzar-se e já havia uma “furgoneta”.

A Banda de Silvares foi uma das mais resistentes da região e gostava de apresentar todos anos algo novo, não só para se promover, mas também para estimular os elementos a continuar com a mesma energia e vontade. Exemplo disso foi a festa de “inauguração” do novo estandarte, em 1952. Inauguração essa que teve notícia de destaque na edição 302 do Jornal do Fundão de 20 de Abril de 1952.

“Com grande pompa e regozijo, foi inaugurado no Domingo de Páscoa, pela Banda Filarmónica, um vistoso e rico estandarte, adquirido por subscrição pública, a fim de não onerar a dívida ainda existente a cargo da direcção, contraída no ano passado com a compra do novo fardamento e alguns instrumentos.

Paraninfaram o acto a Sra. D. Lucília e o Sr. Dr. Jaime Crespo Pignatelli…Houve uma missa realizada pelo nosso Reverendo Pároco, onde se procedeu à bênção do estandarte na Capela-mor com a presença da direcção e Banda. Após a missa a banda deu uma volta pelas ruas com o estandarte…os padrinhos ofereceram um beberete…felicitaram o Sr. Aires Júlio de Oliveira pelo bom gosto que teve na escolha da insígnia.”

Em Dezembro desse ano o mestre deixou de prestar o seu valioso contributo à Filarmónica, depois de 9 anos consecutivos reger com mestria a Banda, que ganhou a reputação de ser uma das melhores da região. Problemas de saúde forçaram-no a deixar a banda sem regente, mas a direcção não poupou esforços e encontrara-se um mestre que era 1º sargento-músico de nome Januário Augusto. Como é apanágio de Silvares, foi recebido com pompa e circunstancia, conforme descreve o JF nº344 de 15-02-1953. “Grande aglomeração de povo que lhe tributou calorosa manifestação de boas vindas… Silvares continua a ter uma população com arreigado bairrismo”. Mas, com a vinda deste mestre para Silvares, as despesas da Banda aumentaram e foi feito o apelo de subscrição de novos sócios, que pagariam uma quota não inferior a 2$50.

Foi neste ano que houve também a fusão dos dois clubes existente na freguesia passando a denominar-se Unidos Futebol Clube de Silvares.

Em 1954 teve de se fazer novas fardas para os músicos Banda por dois motivos: como as deslocações para as festas eram feitas a pé e ás vezes para bastante longe, as fardas estavam bastante gastas; outro dos motivos, foi o ingresso de 14 “miúdos” na Banda, pela festa de S Sebastião. Esses miúdos portaram-se excelentemente e foram muito aplaudidos no dia da sua estreia, conforme nos foi contado pelo “ti” Álvaro com grande emoção e confirmado pelo JF 461 de 6-II-1955. “Foi nesse ano que se fez uma magnífica festa onde se estriou o novo fardamento! O Padre José Lopes festejou os seus 71 anos de vida em Maio, e 42 de sacerdócio em Silvares. O Dr. Jaime também foi homenageado pelos serviços prestados à comunidade”.

Em Outubro foi a Banda alcança mais um grande êxito no Fundão, quando abrilhantou a inauguração do novo Hospital, obra para a qual tinha participado com a realização de cortejos para angariação de fundos.

Até ao ano de 1959 a vida em Silvares ia decorrendo normalmente, com as suas dificuldades do dia a dia, as alegrias e as tristezas iam-se sucedendo no seu ciclo normal, até que, no dia 21 de Junho, um acontecimento deixou em estado de choque a população de Silvares, principalmente as pessoas ligadas directamente à Banda Filarmónica. O ex-maestro da Banda, um dos sócios fundadores, Ernesto Hipólito de Jesus tinha falecido de uma síncope. Era uma pessoa muito querida na freguesia, e a sua morte teve uma notícia de destaque no Jornal do Fundão de 28 de Junho “vítima de síncope faleceu…o Sr. Ernesto Hipólito de Jesus de 60 anos, natural de S Vicente da Beira. Há muitos anos residia em Silvares onde gozava de estima qual como o demonstrou o funeral, que foi dos mais concorridos, foi o primeiro regente da Filarmónica, lugar onde se manteve durante largos anos. Era casado em segundas núpcias com a Sra. D. Delfina Umbelina Roque…”

Foi o falecimento deste homem que desfez a ultima resistência que mantinha viva a Banda. Devido ao grande fluxo migratório para a Europa e Américas a Banda já se debatia com problemas de escassez de elementos, os músicos eram poucos e agora ficavam sem regente. Apesar de todos os esforços desenvolvidos pela direcção presidida por Joaquim Duarte, não foi possível manter a Banda em actividade. No ano de 1960 seria inaugurada, a Avenida do Brasil, em Silvares, com a presença do embaixador do Brasil, mas com muito pesar, sem a presença da Sociedade Filarmónica, já então inactiva.

Em 1962 ainda houve uma tentativa de reerguer a Banda, pela direcção anterior, ainda se fizeram ensaios e a única saída que efectuaram, foi no dia em que o arcipreste de Silvares e novo pároco Padre Jaime Soares Ribeiro, chegou a Silvares, a 1 de Outubro 1962, substituindo o Reverendo Padre José Lopes de Assunção que se aposentara, indo procurar repouso em S Vicente da Beira, sua terra natal, depois de durante 48 anos ter dirigido e aconselhado os cristãos e amigos que agora deixara.

Seguiu-se mais um período em que as inaugurações e acontecimentos tiveram de se passar sem a presença da Banda: a inauguração do novo edifício dos correios e das escolas novas não foi realizada ao som das notas musicais da Filarmónica Silvarense. A Banda não marcou presença no funeral do Padre José Lopes, um dos seus fundadores e principal responsável pelo seu surgimento, que falecera a 14 de Março de 1964, com 79 anos, na sua terra natal. Foram anos de escuridão a nível de música na nossa terra, Alguns resistentes ainda continuaram a afinar os instrumentos, a guardar as letras de 500$00 que tiveram de passar para poder envergar a farda de que tanto se orgulhavam, mas o tempo ia passando, o ensaio continuava fechado e os instrumentos a apanhar pó. Deixou de se ouvir o som dos instrumentos nos ensaios das quartas-feiras e dos sábados, os músicos deixaram de percorrer a pé por montes e vales a nossa região, e Silvares tornou-se muito mais pobre.

Foi então necessário, para poder abrilhantar as festas na nossa terra, recorrer a Bandas de outras terras. Por exemplo para a festa de S. António em 1965, como noticiado em “Ecos de Silvares”nº 42 – Outubro 1965, veio cá a Banda de Unhais da Serra. Até que um homem, o Casimiro Pereira Brasinha, que se iniciara nas lides da música desde o primeiro dia da Banda, juntou alguns dos antigos músicos, embora em número muito reduzido, conseguiram sair para a rua, conforme noticiado no JF 1089 de 16 XI 67 “…reina grande regozijo em Silvares, provocado pelo facto de um reduzido número de antigos componentes da nossa famosa Banda, ter tomado a peito o seu ressurgimento … em número reduzido já saíram para a rua…”

Também o “Ecos de Silvares”nº 67-Dezembro 1967 faz alusão ao reinício da actividade da Banda “…tem percorrido a povoação tocando e cantando as Janeiras, a fim de angariar dinheiro para retomar as suas actividades. Avante! Restauremos a nossa Filarmónica”.

Foi o “Ti Casimiro” que tomou conta da regência, e só em Janeiro é que foi constituída uma direcção, formada por Alberto Inácio Ramos, Joaquim Pires Soares, Belarmino Olímpio dos Santos, João António de Almeida e José Pires Catarino, segundo o JF 1098 de 28-I-1968. O mesmo se publicou, no número 1100 de 11-II-68 que fora contratado um novo maestro, o Sr. António Gonçalves do Castelejo, que substituiria o pioneiro do ressurgimento da banda, o “Ti Casimiro”.

Mestre esse que apenas ficaria responsável pela boa qualidade musical da nossa Banda até ao mês de Outubro do mesmo ano, quando foi substituído pelo mestre Aires Pantaleão, do Castelejo, que segundo o “Ecos de Silvares”nº73-Junho 1968, vinha a Silvares várias vezes por semana para os ensaios.

No ano de 1969 a Banda era formada essencialmente por jovens, visto que os homens de meia-idade tinham na sua maioria emigrado, o que fez com que muitas das bandas da região tivessem acabado, sendo a de Silvares uma das mais resistentes, e com o bairrismo das nossas gentes tudo era possível. Refere-se a esse facto um artigo do JF 1158 de 23-III-69 “Continua com o maior entusiasmo a acção da nossa Filarmónica, dirigida pelo Sr. Alfredo Catarino Morgadinho é composta por elementos jovens que cheios de boa vontade se preparam para o cumprimento da sua missão durante a época de verão, que, devido à falta de Filarmónicas nas circunvizinhanças, se antevê muito trabalhosa. Também…possui já o seu fardamento 7, segundo nos consta, está, graças à actividade da Comissão e à generosidade dos Silvarenses, a quem tal auxilio foi solicitado, praticamente pago, …”
Nos anos que se seguiram, a Banda de Silvares, uma das resistentes da região, não teve mãos a medir, os convites para abrilhantar festas eram muitos e nem todos podiam ser satisfeitos. As deslocações iam desde as terras vizinhas, Ourondo, Castelejo, Barroca, etc., até a povoações mais longínquas, distrito da Guarda, Celorico da Beira, Pampilhosa, etc. O trabalho era muito, mas a vontade de tocar e o amor pela música era maior ainda. Outro dos motivos que levava a direcção presidida por José Dias Fernandes Delgado a aceitar muitos convites, era a necessidade de dinheiro para arranjar alguns instrumentos e os encargos com o novo mestre, António Gonçalves Marcelino, do Castelejo, que se encontrava ao serviço da Banda desde Janeiro 1974, conforme noticia o “Ecos de Silvares” nº 133 – Março 1974

Apesar das muitas dificuldades das gentes de Silvares e da própria Filarmónica, foi necessário, em 1975, fazer novo fardamento devido ao mau estado em que o outro se encontrava por causa do muito uso.

Depois de o peditório de Natal ter sido muito proveitoso, o novo fardamento foi estriado na Procissão da Ressurreição de 1975, segundo o “ES”146-Abril 1975.
Foi em Junho de 1977, mais precisamente a 5, que Silvares teve o seu primeiro mestre diplomado, conforme noticiado no JF 1588 de 17 de Junho: “Perante um júri do Conservatório de Musica de Castelo Branco, constituído pelo Delegado do Sindicato dos Músicos do Distrito e dois mestres de bandas, prestou exame para mestre de banda, no dia 5 do corrente o Sr. José Pereira Gaspar, actual regente da Filarmónica Silvarense, ficando aprovado.”

Mas o final do ano seria menos feliz, visto que muitos elementos participaram a sua indisponibilidade em continuar nas fileiras da banda.”Não se pode dizer que tenha terminado da melhor maneira a época para a Banda de Silvares. Assim, e nas primeiras reuniões tidas pela Direcção e elementos daquela Associação, alguns elementos participaram a sua saída, o que pôs em risco a continuação da mesma”…”Registou-se a saída de elementos influentes ao bom andamento da Banda, o resto dos elementos resolveu prosseguir, não deixando assim, morrer uma das expressões culturais mais antigas da nossa terra…” (in JF 1615 de 23-XII-77) Os efeitos da emigração começava a deitar abaixo os últimos resistentes da região. Mas a força dos Silvarenses foi mais forte e conseguiu que ela não se extinguisse. A sensatez de alguns veio ao de cima e o esforço e dedicação de muitos ajudaram a superar as dificuldades, de tal maneira que a época de 1978, sob a regência do mestre José Pereira Gaspar, foi uma das mais proveitosas dos últimos anos. A crise estava ultrapassada e a Banda singrava por caminhos de glória e sucessos. Alem das festas que abrilhantava, ainda participava em encontros de bandas, concursos etc. Um dos convívios foi o realizado no Cartaxo onde se encontrava também a Banda de Louriçal do Campo da qual era mestre o Joaquim Cabral, que também regia a de Silvares. Esse mestre, foi um dos regentes mais influentes na Filarmónica Silvarense, amigo de Joaquim António Ribeiro Caldas, então presidente da Direcção e que o convidara a vir para Silvares.
Chegou, renovou todo o repertório, sendo muitas das partituras de sua autoria, “fez” muitos músicos e a qualidade da já famosa Banda subiu ainda mais.

Foi sob a sua batuta que as primeiras caras femininas foram vistas na Banda de Silvares, em 1979, foi uma viragem nas mentalidades do povo e em especial da Banda, porque até então a música era tocada exclusivamente por “homens de barba rija”, mas a decisão da entrada de “moças" foi bastante acertada, porque muitos jovens se seguiram e o elenco da banda passou a contar com muitas caras jovens de ambos os sexos. Foi um período muito bom porque aliado à experiência dos mais velhos, os jovens vieram dar uma nova alma à Filarmónica, com o seu sangue novo e o querer de algo mais.

Exemplo disso foi o 1º prémio alcançado pela banda num concurso de bandas organizado pela Câmara do Fundão nas comemorações do 5 de Outubro 1981.Foi um êxito estrondoso, com uma assistência de algumas centenas de pessoas. Muitos Silvarenses assistiram e aclamaram. Noticia do “Ecos de Silvares” 219-Novembro 1981.

Só que esse ímpeto de vontade de mudança não foi devidamente aproveitado pelas direcções que mandaram nos destinos da Banda. Durante a década de 80 a banda apesar de muito sangue novo e, de um repertório rejuvenescido, continuou apenas a abrilhantar as festas populares, não saindo dessa rotina, talvez por comodismo das direcções seguintes.

Os anos iam decorrendo e a Banda continuava o seu trabalho, abrilhantando muitas festas na época de verão, algumas nas épocas “baixas”, dando concertos em alguns cantos do concelho e não só, mas era nessas épocas baixas que o grande trabalho era desenvolvido, com a formação de novos músicos, ensaios de novas partituras, para que o repertório fosse mudando e houvesse algo de novo a apresentar aos amantes da boa música e ao público em geral.

Em 1989, aproveitando a comemoração dos seus 68 anos, a Banda reuniu, num dia de grande regozijo, todas as colectividades de Silvares e população em geral, tornando esse dia memorável.

Mas depois de um período alto veio um bastante baixo, e este devido mais uma vez à procura de uma vida melhor e mais estável por parte dos homens, devido ao grande fluxo migratório do final da década, com destino à Suiça. Também nas lides musicais isso se fez sentir. Por falta de elementos, a música voltou a deixar de se ouvir ás quintas-feiras no ensaio. Mais uma vez devido à falta de executantes, o que aliás sempre fora o grande problema, os instrumentos pendurados num prego ou dentro de uma mala não conseguem tocar, e o componente humano mais uma vez falhou. A Filarmónica Silvarense acabou.

Depois de alguns anos parada, um Homem, Hermínio Gaspar Lopes, um grande amante da música em geral e da banda em particular, conseguiu, com a ajuda de alguns amigos que convidou para juntos formarem a nova direcção, o que muitos diziam ser impossível. Com muito sacrifício e dedicação, convenceu alguns antigos músicos da terra a regressar ás lides musicais, foi buscar elementos às extintas bandas do Castelejo e S. Jorge da Beira para reforçar o grupo, e sob a regência do mestre Alfredo Catarino que regressara a Silvares, conseguiu-se que os sons saídos dos instrumentos que estavam ao pó há já algum tempo, voltassem a acariciar os ouvidos dos Silvarenses.

Muitos foram os jovens que ingressaram nas fileiras da Banda. Integravam o grupo ainda com pouca formação, mas era necessário que fossem formados o mais rapidamente possível dado o reduzido número de elementos.

Havia que escolher entre a qualidade e a formação. Mas depois da formação, a qualidade vem por acréscimo e foi o que de facto aconteceu. A isso também muito ajudou o regresso do mestre Sebastião em 1996, que já cá estivera na década de 70. Será sob a batuta do Mestre Sebastião Breia, que em Abril 2003, se gravarão os mais conhecidos números da banda, desde a Alvorada ao Beijo de Amor, numa compilação, para que os filhos de Silvares nunca deixem de acariciar a Associação Filarmónica Silvarense e que as notas musicais que durante mais de oito décadas os fizeram vibrar e orgulhar de pertencerem a esta linda terra, os acompanhe em qualquer parte do mundo.

Para que tal continue a acontecer, a dinâmica direcção actual, tomou posse em Janeiro de 2003 e, presidida por Carlos Morgadinho, está a enveredar todos os esforços para que a Nossa Filarmónica nunca mais tenha momentos baixos. Após a gravação do primeiro compact disk, não só da Filarmónica Silvarense, mas ao nível do Concelho, este ajudará a angariar fundos para construir uma sede condigna para que os músicos possam trabalhar nas melhores condições, e, que o sonho que muito homens durante várias gerações acalentaram, se possa concretizar. Mas para que a Banda possa prosseguir na senda do êxito, precisa de elementos para tocar os instrumentos. Para isso será criada uma escola de música, aberta a todos, lugar onde poderão aprender a arte de bem tocar os diversos instrumentos. Só que, para isso, a ajuda de todos os Silvarenses é necessária. Como aconteceu com os nossos antepassados, que nunca deixaram de ajudar a banda, mesmo em épocas de maiores dificuldades, não vamos deixar que a nossa Filarmónica acabe seja por que razão for. Vamos também aprender música e ingressar nas fileiras. Este é mais um momento histórico, não só para a Sociedade Filarmónica Silvarense, como também para Silvares e para todos os Silvarenses.





 

 
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