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Filarmónica Recreativa Cortense

Filarmónica Recreativa Cortense

Cortes do Meio, Concelho da Covilhã, Distrito de Castelo Branco

David Bowie: quando a mentira é o segredo do sucesso

Desde o início que David Bowie sabia que o novo álbum seria um segredo. Trabalhou com o menor número de pessoas possível e como condição pediu-lhes um pacto de silêncio.

Primeiro, a euforia: David Bowie vai lançar um novo disco, depois de dez anos de silêncio quase absoluto. Já se pode ouvir o primeiro single e tudo. E depois, já com a faixa "Where Are We Now" no ouvido, as perguntas: mas como é que na era da informação e das redes sociais, das fugas de informação e dos rumores, foi possível manter todo o plano em segredo? Como é que não se soube de nada? Não foi fácil, conta quem esteve ao lado de Bowie. A mentira, entre alguns pactos de silêncio, foi o truque mais usado.

“Mas o que é que te mantém tanto tempo ocupado? O que é que andas a fazer? Que trabalho é esse que não podes dizer nada?” Terão sido algumas das perguntas que Tony Visconti, o produtor de sempre de David Bowie, mais ouviu nos últimos dois anos. Da mulher, dos filhos, dos amigos. Todos estranharam, todos quiseram saber e também todos desconfiaram que teria a ver com Bowie. Mas a resposta de Visconti foi sempre a mesma: “Estou a trabalhar num grande projecto mas não posso dizer o que é e mesmo que tentem adivinhar nomes eu não vou dizer nem que sim nem que não”.

O anúncio de que em Março David Bowie terá nas lojas o álbum The Next Day foi por isso para o produtor um alívio, mais do que um motivo de alegria e satisfação de dever cumprido, como o próprio contou ao The Guardian. “Já me sentia desconfortável com a situação mas sabia que era a única forma possível de o fazer”, disse Visconti ao jornal britânico, explicando que mesmo tendo estado sempre ao lado de Bowie foi surpreendido na terça-feira, dia em que tudo se soube. É que Visconti, que terminou de trabalhar no álbum na semana passada, não sabia que o lançamento ia já ser anunciado. “Pensei que só ia sair o single.”

E o mesmo aconteceu com a editora, que soube do novo trabalho de Bowie quando este já estava praticamente todo terminado. Nem sequer Rob Stringer, presidente do grupo Sony Music Label e que é considerado um dos nomes mais influentes na indústria da música, foi avisado. Stringer só ficou a saber da existência de The Next Day há um mês, quando foi convidado para ir a Nova Iorque ouvir algumas músicas ao estúdio onde tudo aconteceu. Quanto ao álbum, ainda nem lhe foi entregue uma cópia, contou ao The Guardian Visconti, lembrando que uma das primeiras perguntas de Stringer, quando este se encontrou com o músico e com o produtor nos Estados Unidos, foi sobre a campanha publicitária de lançamento do álbum. “Não há campanha publicitária. Vamos lançar a música no dia 8 de Janeiro, só isso”, foi a resposta de Bowie, que quis desde o início manter segredo.

Tudo começou há cerca de dois anos, quando Bowie ligou a Visconti para os dois voltarem novamente aos discos. Já todo o plano estava delineado. Bowie sabia bem o que queria e por isso estabeleceu como única condição ao produtor a de que ninguém poderia saber de nada. Mas não foi fácil. É que logo no início o músico viu-se obrigado a mudar de estúdios.

Os estagiários dispensados em dias de gravação
“Dissemos-lhes para manterem segredo mas eles destruíram tudo em menos de 24 horas. Ainda nem tínhamos começado o álbum e recebemos uma chamada: ‘É verdade que estão a trabalhar num novo álbum no tal estúdio?’”, lembra Visconti, explicando que a informação foi imediatamente negada e foram assim obrigados a procurar outro local para trabalhar. “Tivemos sorte com o estúdio, num local que se chamava The magic Shop em SoHo. Tinha normalmente estagiários a trabalhar mas sempre que lá íamos, eles dispensavam-nos porque não queriam que nos vissem”, acrescenta o produtor, explicando que sempre que gravavam ou ensaiavam a equipa no estúdio ficava reduzida a duas pessoas.

Neste processo, e para garantir que nunca nada se saberia, todos os envolvidos, incluindo Visconti e os músicos que colaboraram com David Bowie tiveram de assinar um pacto de silêncio. “Entre nós [Visconti e os músicos] não era preciso mas à medida que mais pessoas foram ficando envolvidas foi necessário porque não conhecíamos toda a gente assim tão bem.”

Ao The Guardian o guitarrista Earl Slick, responsável pelo conhecido solo de Station to Station de 1976, contou as fortes medidas de segurança, lembrando que apenas ele podia entrar no estúdio e nem sequer podia ter alguém o levasse até lá. Pelo contrário, Bowie também pensou nisso e tinha alguém encarregue para o ir buscar, assim como a todos os envolvidos. Também para o músico não foi fácil ter de mentir, principalmente depois de ter sido escolhido para a capa do mês de Dezembro da revista Guitar Player. “Estou a trabalhar no novo álbum do Bowie e não posso contar a ninguém”, pensou Slick, que acredita que o seu companheiro vai querer voltar aos palcos. Entrentanto, Bowie já lhe agradeceu, via email: “Obrigado por te teres mantido calado.”

Quanto ao vídeo, que na terça-feira foi revelado, terá sido mais fácil guardar segredo, visto que não precisou de tanto tampo de preparação e os envolvidos são todos próximos do músico, a começar pelo artista Tony Oursler, o realizador.

Já conhecido no mundo das artes por utilizar o vídeo em superfícies tridimensionais, como fez com o rosto de Bowie e da mulher que ninguém conhece que aparece ao lado do músico, Tony Oursler contou ao El País que foram precisas apenas duas semanas para que o vídeo de Where are we now? ganhasse forma.

“Fizemos o vídeo com uma equipa pequena mas muito talentosa. Tenho a sorte de trabalhar com um grupo de profissionais jovens mas muito criativos e com grande conhecimento técnico. Alguns deles são artistas reconhecidos. O David sabia que teria uma equipa assim com estas características”, contou o artista, que conheceu Bowie em 1996 numa exposição conjunta que tiveram em Itália.

O conceito do vídeo, que evoca os tempos de Berlim de Bowie, quando ali permaneceu (entre 1976 e 1979), tendo gravado uma trilogia de álbuns míticos (Low, Heroes e Lodger), foi toda do músico, “que tem ideias muito claras das coisas”. “Foi um pouco como entrar na sua cabeça e ir extraindo as imagens que ele fazia para o mundo exterior”, disse Oursler, desvendando o mistério da mulher que aparece no vídeo e que gerou um grande frenesim, tendo-se até suspeitado de que seria a islandesa Björk. “A mulher é na realidade a artista Jacqueline Humphries, com quem estou casado há dez anos, e é muito amiga de Bowie.

Se pensar bem em como tudo aconteceu nos últimos dois anos, Visconti não sabe como é que ninguém juntou as peças todas ao ponto de descobrir tudo. “As provas estavam lá. Ele [Bowie] foi fotografado perto do estúdio. E há um ano pediu a Robert Fripp para tocar no álbum e ele escreveu logo no seu blog qualquer coisa como ‘David Bowie pediu-me para tocar no seu álbum mas estou muito ocupado’ e ninguém acreditou”, exemplificou o produtor.

O certo é que nada se soube e a surpresa foi geral. Aos 66 anos, David Bowie voltou a dar cartas e a baralhar toda a indústria da música, ao inventar uma nova forma de promoção. Uma forma que se julgava impossível de concretizar em pleno ano de 2013. Ele ainda consegue apenas aparecer quando quer e ser falado quando deixa que se fale.