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Filarmónica Recreativa Cortense

Filarmónica Recreativa Cortense

Cortes do Meio, Concelho da Covilhã, Distrito de Castelo Branco

Em defesa das "bandas de rua"

 

 

Porque o verdadeiro músico é aquele que, ao ouvir estalar um foguete, olha, desconfiado, o céu em busca da cana.

Sinto já no pescoço a fria lâmina por entre os risos e aplausos dos que insistirão em levar-me ao cadafalso.

Invoco em mim recordações de tempos que não conheci, tempos em que crianças de olhar traquina e joelhos esfolados de subir aos muros recitavam, como uma oração, trechos de um qualquer solfejo.

Nesse tempo a Banda era amada, era a ópera dos pobres nos concertos das tardes domingueiras em teatros que não eram mais que simples coretos em jardins públicos, era o som da festa rija nas arruadas que percorriam a aldeia e nas noitadas no adro da igreja, era o som solene que acompanhava os santos em procissão unindo o Homem e o Divino, era o som do adeus último a esta Terra traduzido nos compassos lentos de uma marcha fúnebre.

Nesse tempo, um bom músico não precisava de estudar no Conservatório, na Banda nascia, a Banda o acompanharia até à morte.

Surge este desabafo, na sequência de uma raiva contida contra todos os que, “para o bem da música,” querem desvirtuar as características únicas das bandas.

De facto, aqueles que, suprimindo as arruadas e procissões, querem transformar a Banda numa Orquestra de trazer por casa, invocando princípios de “elevada musicalidade” para o fazer.

“É anti-musical tocar em arruadas,” dizem eles.

E eu pergunto: Matar a Arte para atingir a perfeição técnica, é o quê?
Mas deixando de lado a distinção entre música e Música que só apressaria o momento em que serei queimado vivo num qualquer adro de igreja, voltemos à questão principal: Tocar na rua.

Todos aqueles apóstolos de quem primeiro se negou a tocar na rua estão a cometer um crime:
Além de desvirtuarem a Banda, que a eles pertence e de direito podem modificar, estão a desvirtuar a Festa, que não lhes pertence, retirando esse direito às Comissões de Festas e ao Povo.

Imaginem agora uma festa sem banda: A cabine de som debita música popular e as procissões são feitas sob um silêncio perturbador. É como uma festa sem foguetes.

(Sim, os foguetes podem ser perigosos quando manejados por mãos inábeis e negligentes, mas, reportando-me ao Verão de 2003 em que, devido aos incêndios, foram proibidos os foguetes, o som de uma procissão a recolher sem os foguetes a rebentar é desolador, ecoando cada nota da marcha num vazio que perturba sem se saber porquê.)

E, tal como o músico antigo olha para o céu quando ouve o estalar da bomba com receio que a cana lhe caia em cima (gesto que os maestros defensores do “fim da rua” teimam em reprimir), também o som da marcha de rua soa alegre e despreocupado, talvez sem perceber que, lentamente, caminha para o silêncio de um arquivo de músicas antigas, nunca mais tocadas, “por amor à música.”

André Barbosa / André da Flauta (artigo retirado de www.bandasfilarmonicas.com)
Abril de 2004